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Chatô – O Rei do Brasil (Dir.: Guilherme Fontes, Brasil, 1997 – 2015)

Eduardo Benzatti

“Chatô, o Rei do Brasil” finalmente ficou pronto! Iniciado em 1997 (o ator Guilherme Fontes comprou os direitos autorais do livro homônimo do escritor e jornalista Fernando Morais em 1995, ficou dois anos captando dinheiro e muito pouco produziu do filme na época) só agora, em 2015, que as filmagens terminaram – por isso não vá se espantar com a presença de atores como José Lewgoy e Walmor Chagas, ambos já falecidos, fazendo umas “pontas” no filme. Polêmicas à parte – o ator/diretor Guilherme Fontes ainda está sendo processado por ter captado financiamento de organismos governamentais e não ter entregado o filme nos prazos como contratado -, o filme é bem irregular – o que para uma produção que demorou tanto tempo para ser finalizada e para um filme realizado num intervalo tão grande de tempo – é um mérito.

O diretor utilizou de uma estratégia inteligente e funcional para contar a história do maior magnata da indústria da comunicação no Brasil – o nosso “Cidadão Kane” -, o polêmico (polêmico é pouco) Francisco Assis Chateaubriand, o Chatô (1892 – 1968), no filme interpretado por Marco Ricca, em ótima atuação: inventou um tal programa de auditório – isso não existe no livro, que aliás é ótimo e deveria ser lido por todos que se interessam pela história recente do Brasil – que tem como atração o “julgamento” do próprio Chatô – dá-se a entender que se trata de um delírio do protagonista nas horas finais de sua vida – ele morreu depois de ficar muito doente, intubado, já paraplégico e impossibilitado de falar e escrever (até quando conseguiu escrever diariamente, produziu mais de mil artigos).

Então no “programa” fictício, o homem é obrigado a repassar momentos de sua vida, da infância até sua doença – aí entra em cena as escolhas do diretor pelas passagens que julgou mais significativas do livro para retratara no filme (novamente: quem leu o livro se recordará de algumas delas e também pode sentir faltas de outras tão interessantes quanto as retratadas – eu, por exemplo, colocaria a passagem em que o biografado responde a uma notícia que lhe dão.

Algo mais ou menos assim: “Chatô, o Presidente Getúlio Vargas morreu! Se suicidou!” “Ótimo, vou me candidatar ao lugar dele na Academia Brasileira de Letras!” E o fez mesmo!): a primeira entrevista com Getúlio Vargas (no filme interpretado por Paulo Betti, bem caricatural) durante a Revolução de 30 – Chatô e Getúlio foram amigos e inimigos até a morte do Presidente -; a aquisição dos primeiros jornais do grupo dos Diários Associados – Chatô teve dezenas de jornais – e revistas, rádios e até um canal de televisão – em vários estados do Brasil (todos pertencentes aos Diários Associados); a inauguração por ele da primeira emissora da TV Brasileira (a TV Tupi que entrou no ar em 1950); as chantagens que ele fazia aos empresários paulistas para que esses doassem dinheiro ou obras de arte para a fundação do MASP – Museu de Arte de São Paulo; seus casamentos (e traições) e suas brigas conjugais (Chatô chegou a fazer com que GV mudasse uma lei constitucional para que ele ficassem com a posse de sua filha com Lola – no filme interpretada por Leandra Leal); sua carreira política (foi senador pela Paraíba, eleito em 1952 e pelo Maranhão, em 1955, em duas eleições fraudulentas e foi também embaixador do Brasil em Londres também nos anos 50).

Declaradamente paraibano adorava alfinetar a burguesia brasileira – da qual conseguiu fazer parte – com suas “brincadeiras” que exaltavam o “verdadeiro” Brasil.

No filme chama a atenção também a reconstituição de época que é boa, mas também não arrisca grandes planos abertos – ou seja, se passa ou em lugares privados ou, quando externos, em plano mais fechado retratando poucos elementos à volta. Há também várias trucagens que lembram os filmes americanos de aventura (preto e branco) das décadas de 40 e 50 (“Casablanca”, o próprio “Cidadão Kane”).

Enfim, o livro é bem melhor que o filme, mas o filme é interessante, especialmente para quem não leu o livro conhecer um pouco mais desse complexo homem.

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