Algumas considerações sobre a clínica das adições

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Pedro de Santi

A clínica contemporânea recebe números cada vez maiores de pessoas afligidas por adições: em drogas, smartphones, alimentação, relacionamentos, etc. O tratamento das adições é reconhecido como especialmente difícil. Pode se trata-las de uma perspectiva comportamental e simplesmente procurar removê-las ou, da perspectiva psicanalítica, incluí-lo na compreensão da história de cada sujeito singular.

A bibliografia sobre o tratamento sempre remete ao discurso dos “12 passos” derivado do tratamento do alcoolismo e que traz a todo psicanalista o incômodo de ser ostensivamente alienante e tão-somente substituir o objeto da adição por outro, de conotação religiosa. O trabalho em torno dos 12 passos é sempre coletivo, organizado por alguma ordem institucional. Enumero a seguir os passos:

1º. Admitimos que éramos impotentes perante a nossa adição, que nossas vidas tinham se tornado incontroláveis; 2º. Viemos a acreditar que um Poder maior do que nós poderia devolver-nos à sanidade; 3º. Decidimos entregar nossa vontade e nossas vidas aos cuidados de Deus, da maneira como nós o compreendíamos; 4º. Fizemos um profundo e destemido inventário moral de nós mesmos; 5º. Admitimos a Deus, a nós mesmos e a outro ser humano a natureza exata das nossas falhas; 6º. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter; 7º. Humildemente pedimos a Ele que removesse nossos defeitos; 8º. Fizemos uma lista de todas as pessoas que tínhamos prejudicado, e dispusemo-nos a fazer reparações a todas elas; 9º. Fizemos reparações diretas a tais pessoas, sempre que possível, exceto quando faze-lo pudesse prejudica-las ou a outras; 10º. Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente; 11º. Procuramos, através de prece e meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, da maneira como nós O compreendíamos, rogando apenas o conhecimento da Sua vontade em relação a nós, e o poder de realizar essa vontade; 12º. Tendo experimentado um despertar espiritual, como resultado destes passos, procuramos levar esta mensagem a outros adictos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.

A eficácia terapeuticamente respeitável dos “passos” reside em assumir que a pessoa não possui recursos próprios de contenção. Não há uma força do eu suficiente para conter ou direcionar a angústia por outros caminhos senão pelos sulcos profundos da compulsão. A contenção precisa vir de fora, de uma instância simbólica (a instituição) e da força de um trabalho em grupo regular, no qual o sofrimento é empaticamente reconhecido e cada avanço igualmente traz reconhecimento. Trata-se de uma renúncia da sustentação em uma subjetividade singular e privatizada em favor da inserção e acolhimento por uma rede. É sabido que o abandono da adição fica condicionado ao reforçamento contínuo por parte do grupo, assim como ao fato de a pessoa assumir ela mesma o papel de propagar sua experiência de vitória sobre o vício. É preciso “salvar” sempre mais pessoas para o reasseguramento da própria salvação. Este é o elemento que agrega um aspecto dogmático, de pregação religiosa àqueles que se mantem longe de suas adições anteriores.

Da perspectiva dos valores da subjetividade moderna, tal renúncia de si ou alienação é incômoda, vista como um erro e só pode ser vista com escárnio. Nosso ideais modernos exigem autonomia e veem com desconforto qualquer forma de dependência. Mas é preciso reconhecer que este pode ser o único recurso acessível a muitas pessoas efetivamente sob o risco de vida sob suas adições.

Da mesma forma, a “troca” de uma adição mortífera por outra menos mortífera também pode ser tomada como inócua, quando pode ser um recurso legítimo e mais acessível. Mas, uma vez mais, tem prevalecido clinicamente o raciocínio do “mal menor”.

O que quis evidenciar nos últimos parágrafos é o reconhecimento da dificuldade enorme em se remover a adição de uma pessoa. É a percepção das dificuldades de uma cura efetiva que faz com que se aceite os caminhos paliativos.

Procuremos então pensar numa perspectiva psicanalítica como poderia ser pensada esta clínica da adição. Saímos então do foco do comportamento inadequado a ser removido e buscamos pela história e significação deste sintoma.

Em “Aspectos clínicos e metapsicológicos do uso de drogas”, de Octávio Souza (2002), encontramos o reconhecimento de que o uso de drogas não deva ser tomado como “problema a ser removido”, mas como um recurso defensivo e, em muitos casos, constitutivo. É na possibilidade de se interrogar sobre o sentido e função da adição que se pode encontrar uma perspectiva para a clínica psicanalítica das adições.

Desde Winnicott, estamos habituados a compreender atos antissociais como movimentos de esperança endereçados ao ambiente. Isto se encontra no usuário de drogas ilegais. Mas, para além disso, propõe Souza:

Há de se considerar que as drogas, mais que objeto de gozo a renunciar, muitas vezes são fontes de qualidades experienciais que o sujeito necessita para manter a esperança de constituir para si uma base existencial a partir da qual possa, posteriormente, vir a desejar.

O autor não ignora o fato de que esta transição é operada por algumas pessoas, enquanto outras apenas se refugiam indefinidamente naquele espaço, nada conseguindo constituir.

Para Souza, a clínica do usuário de droga deve compreender o sentido do que está sendo buscado e propiciar o encontro com esta experiência. A experiência de que trata está também além do uso de drogas, mas a clínica não deve cobrar a renúncia ao recurso a ela. A ação analítica não estaria focada na interpretação de conteúdos, mas em prestar testemunho empático e companhia naquela busca pela possibilidade de se constituir. Cito aqui uma longa e precisa passagem:

O tipo de interpretação requerido, entretanto, não é aquele que se dirige às formações do inconsciente para ali destacar o gozo no qual o desejo se cristaliza, propiciando sua queda em um ato de renúncia. Ao contrário, o tipo de interpretação requerido visa a complementação, a qual apenas se torna possível através do contato empático com a experiência que o sujeito apresenta silenciosamente. O contato empático tem não a função de esclarecer, mas sim a de trazer a presença de um outro para a proximidade de uma experiência que se esboça na solidão. Essa interpretação não pretende desestabilizar o ego, como é o caso da interpretação das formações do inconsciente, mas mostrar-lhe que foi compreendido em seu modo de funcionar. Não visa a uma fantasia a ser explicitada e atravessada, mas a uma prova a ser identificada e concluída. E, para tanto, há a necessidade de companhia e de apoio.

Trata-se aqui de uma clínica nos moldes da que se aplica em casos-limite. Boa parte dos drogaditos se enquadraria entre eles, embora penso que possamos encontrar casos de adição também entre neuróticos e psicóticos.

Nós, psicanalistas, conhecemos o impacto transferencial envolvido na atuação clínica sobre as adições, assim como a forte dependência e cobrança que acabam por ser evocadas e a demanda sobre o analista. A tudo isso se soma a frustração com a demora ou inexistência de resultados mais consistentes. É isto que torna dominante o recurso ao modelo dos 12 passos, no qual há ao menos um deslocamento do objeto de adição para outro que, se é alienante, ao menos não é mortífero.

Numa clínica psicanalítica da adição, é preciso elevar em muitos graus a paciência e a capacidade de sustentar a esperança no processo já característica ao nosso trabalho.

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